Habemus liberdade

Após uma leitura atenta, à obra de Daron Acemoglu e James Robinson, “Porque Falham as Nações” deixo a minha opinião crítica ao:

“Melhor livro do ano”

9789896441975

As expetativas do livro são altíssimas após o Financial Times (FT) intitular desta forma o produto de Acemoglu e Robinson. Assim, começou uma aventura com mais de 500 páginas.

autores-01Primeiro que tudo é importante saber que todo este livro foi um resultado de 15 anos de investigação por parte dos autores, ambos professores universitários na área da economia. Robinson (dir. da fotografia) conhecido como um perito de renome mundial nas áreas geográficas da Ásia e América Latina, Acemoglu (esq. da fotografia) reconhecido com um prémio John Bates Clark (destinado a economistas de idade inferior a 40 anos com uma grande contribuição para a área).

O que trata a obra?

No livro são discutidas as nações, as suas políticas económicas e os seus estados resultantes das decisões do poder das instituições. Revela vários fatores diferenciadores das nações e tenta explicar porque razão existem umas tão estáveis e outras tão empobrecidas e míseras. Segundo os autores, as instituições revelam-se determinantes para definir o sucesso económico da nação.

Abordam-se os rendimentos nacionais e os contrastes entre os mesmos do mundo atual. Ao longo da obra falam-se de várias estratégias político-económicas e é criticada a “formúla de sucesso” que a China adoptou e que com a mesma cresceu economicamente de forma bruta. Fala-se da ascensão económica do Brasil e compara-se o estado de Portugal a Espanha e à Coreia do Sul.

Como o FT refere na sinopse do livro, o seu título não é respondido pelo “clima, geografia ou cultura da nação, mas sim pelas instituições”.

Fukuyama, uma possível inspiração

Como o FT refere, Robinson e Acemoglu entram na zona de conforto de um economista político nipo-estadunidense de renome. Trata-se de uma figura bastante relevante do conservadorismo, mentor do governante Ronald Reagan, doutorado em ciência política e e professor de economia política. Assim, Francis Fukuyama foi um milionário resultante de um best-seller, “O Fim da História e o Último Homem”, e defendia até à morte que a origem da pobreza estava na falência dos Estados. Chegava a dizer que países como o Haiti ou o Afeganistão não se poderiam intitular de nações com governo. “O país que sofresse deste poder com falhas nas suas funções básicas produzia doenças, crises, refugiados, abusos de lei e até terrorismo.” Se antigamente os problemas resultavam de várias nações com um grande poder, hoje surgem de muitas estarem na miséria, a viver o caos.

Desde o lançamento da sua obra mais conhecida, foi contestado relativamente às suas ideologias e nasceu um ódio sobre o mesmo por parte do lado esquerdo da política. De qualquer das formas, nos últimos anos tem sido criticado também pela direita. “O sucesso virá, acredita Fu­kuyama, na combinação exata de três elementos: a criação do império da lei que se estenda a todos os cidadãos, o surgimento de um Estado forte e um equilíbrio tal que o governante seja submetido a alguma prestação de contas de seus atos.” Este autor inveja ainda a forte capacidade de adaptação da China e critica a fraca aptidão de tal dos EUA.

Assim, esta obra de que falo escrita por Robinson e Acemoglu foi muito introduzida nas temáticas já muito estudadas e defendidas por Fukuyama e também por Ian Morris. Após a publicação do livro, Francis lançou um artigo crítico no The American Interest.

To the point…

Entre políticas, economias, ciências e histórias retirei vários pontos chave. Abordando tanto as questões das instituições e que as mesmas definem o sucesso ou o insucesso da nação, achei que seria de realçar um pormenor das mesmas. Na obra, estas diversificam-se entre inclusivas e extrativas. As primeiras transpiram liberdade. “Permitem e incentivam a participação da maioria das pessoas em atividades económicas que tiram o máximo partido dos seus talentos e competências e que possibilitam que façam as escolha que quiserem.” Como o nome indica, incluem-nos no seu processo e na sua economia. Existem conceitos como o de proteção de propriedade privada e de força jurídica isenta/neutra. São permitidas todas as novas empresas que quiserem e os indivíduos têm a liberdade de escolher as suas carreiras.  Assim, as extrativas são o contrário, retratam as realidades da Coreia do Norte e da América Latina colonial.

As instituições económicas inclusivas fomentam mercados inclusivos. Assim, é dada aos indivíduos a liberdade de exercerem a atividade profissional que melhor se enquadra às qualidades individuais e existe uma igualdade de condições. É o que Acemoglu e Robinson defendem na obra com a conclusão final:

“Aqueles que têm boas ideias poderão criar empresas, os trabalhadores tenderão a optar por mais atividades em que a sua produtividade é maior, e as empresas menos eficientes podem ser substituídas por outras, mais eficientes”.

As instituições extrativas iniciam um percurso cujo ponto de chegada é o fracasso total do Estado. Estas acabam por destruir a ordem e os incentivos económicos. Desta forma, o produto final destas instituições é a estagnação da economia. Tal situação espelha-se na Serra Leoa, no Zimbabué e em Angola, que passam por guerras civis, situações de fome e epidemias. Tornam-se hoje mais pobres os países que já o eram há 4/5 décadas atrás. 

O centro da obra é então as “origens do poder, da prosperidade e da pobreza” que se explica muito pelas instituições e formas de estas governarem as nações.

 

A reter nas RP

Bastantes são aqueles pontos que relaciono com as Relações Públicas e as áreas da economia e política cruzam-se também muito facilmente com as RP. Começando pelo próprio capítulo das “Teorias que Não Funcionam”, também o assim é com os planos de comunicação quando não bem pensados e mal avaliados. Fazer por fazer, sem ter um objetivo concreto, táticas para os atingir e uma meta em vista a alcançar no final não tem qualquer bom resultado. Mesmo com tudo muito bem pensado, pode dar errado. Porque na teoria pode parecer tudo muito bem, mas quando se executa o resultado pode não ser o melhor. Existe todo um contexto atual que deve ser percebido, assim como o ambiente envolvente. Para além disso, surgem a toda a hora imprevistos, novas situações, novos fatores que influenciam todo o processo pensado anteriormente. Assim, é importante pensar, desde o início, em hipóteses de ambientes possíveis de se materializar e em soluções para todos eles de forma a minimizar o risco de o produto final ser pejorativo.

Avançando um pouco até ao 4ª capítulo, lidamos com mudanças institucionais face a conflitos políticos e com o poder que o passado tem no presente. Desde o início do capítulo que fui sempre ligando a dois conceitos: o de crise e o de reputação.

O primeiro porque existem várias situações de crise em inúmeras empresas e resolvê-las passa muito pela forma de comunicar após o incidente. Assim como uma instituição muda perante o conflito político, toda a sua comunicação deve ser alterada perante essa mesma alteração. É vital perceber as necessidades e as preocupações da população. Não seria possível, por exemplo, para a United Airlines ter uma iniciativa e comunicá-la com grande eficácia como a da TAP a promover a cozinha de renome nos seus voos. Vivendo uma situação caótica como a que está a viver, a sua preocupação tem de ser ultrapassar o período péssimo vivido na organização e comunicar de forma a ultrapassá-lo da forma mais saudável possível. Ainda por mais, um dos grandes valores da United Airlines, expressa no site em letras grandes, é a segurança e a confiança. Como é possível confiar na segurança de uma companhia aérea que tenta expulsar clientes de um voo e recorre à violência para tal?!

Em segundo lugar, a reputação porque a mesma se define a longo prazo. Difícil de se construir mas simples de se arruinar. Assim, o passado tem um grande poder no presente e até no futuro. Tudo o que estamos a construir tem de ser pensado a longo prazo para existir uma continuidade, uma coerência e para que os públicos se sintam confortáveis com a empresa que lhes vai ter de ser credível. É complicado desvincular um erro do passado na empresa. O caso da United Airlines pode voltar a ser um exemplo. Trata-se de uma situação atual para qual ainda não vimos uma solução a 100%. Vamos ver até que ponto conseguem ultrapassar este péssimo momento que já afetou, e muito, todo o negócio. Veremos quanto mais tempo demorará a reagir o departamento de comunicação a esta situação de forma eficaz. Toda a reputação foi afetada, foi destruída e não se sabe quantos mais dias, meses, anos serão necessários para obter a confiança dos clientes.

Outro ponto bem assente e comum à obra e às RP é o “Fugir do Padrão”. A normalidade nada de novo traz. É preciso inovar, fugir do neutro, diferenciar de alguma forma. Negar o padrão é arriscar mas também é uma oportunidade de ser melhor, de ter vantagens competitivas. Assim como expresso no livro a história dos “Três Chefes Africanos” que desembarcaram em Inglaterra com a missão de salvar os seus estados; ” O Fim da Exração Sulista”; e até mesmo o “Renascimento da China” em que derrubaram a burguesia, é bom arriscar. Os caminhos fora do padrão podem ser bons e quando o são, afirmam-se como revolucionários. Assim, em toda a comunicação de uma organização também é necessário inovar, ser criativo, sair dos padrões normais de comunicação, optar por conteúdos ou formas de os comunicar nunca antes vistos. Um grande exemplo de comunicação inovadora tem sido a Carlsberg UK, com a sua rúbrica “If Carlsberg did…”. Desde aproveitar os mecanismos de bagageiras no aeroporto para dar aos passageiros caixas de cervejas antes de todas as suas malas, possibilitar cortes de cabelo, ou, a melhor para mim, karts para ir às compras.

Assim como as instituições inclusivas resultam da liberdade, permitem a escolha e o uso dos talentos pessoas para as suas atividades profissionais, o mesmo se quer num contexto profissional de RP. Seria impossível executar um bom trabalho à escala do que se faz hoje sem estar ocorrente a tudo o que se passa a nível mundial, dos contextos culturais, da possibilidade de escolha, até mesmo de comunicar, fosse de que forma fosse. Numa nação que se viva de forma exclusiva com instituições exclusivas (caso da Coreia do Norte), é impossível um profissional de RP operar. Pelo menos sem que os únicos objetivos passem por influenciar a sua população e fechá-la ao máximo nas suas fronteiras, mantendo-a ausente de tudo o que passa fora da sua área geográfica e nos seus órgãos de poder.

Por fim, um grande ponto que se retêm desta obra e aplicável às RP é a relevância de implementar boas práticas de gestão. Seja num contexto macro, micro, mundial, ou regional é algo vital. O ponto máximo sem dúvida que passa pela liberdade de expressão e pelo direito à informação que sem eles nada seria igual e provavelmente as RP ainda não existiriam.

 

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